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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Antes que seja tarde

Antes que seja tarde
Fale tudo
Sem rodeios
Sem timidez
Sem contar palavras
Com delicadeza

Fale do amor escondido
Da mágoa contida
De tudo
que sempre se guarda pra amanhã 

Fale da alegria
Do imprescindível
Da presença que é ainda quente
Antes que tudo esfrie

Antes que seja tarde
Fale amenidades
Declare a saudade
Derreta-se em elogios

Olhe fundo
Abrace forte
Aperte as mãos

Antes que seja tarde
Perceba
Insista
Apure o olhar 
E cada um dos sentidos

Antes que seja tarde
Viva!



domingo, 2 de julho de 2017

O excesso que anestesia

     Pimenta nunca me assustou. Gosto de sentir a boca queimando, os olhos se enchendo de água e do calor que toma conta do corpo. Uma vez, num jantar em Diamantina, o garçom se aproximou pra dizer que nunca tinha visto alguém comer pimenta tão tranquilamente. Era daquelas fortes e eu tinha misturado umas três ao prato de comida mineira. Uma delícia!
     Enfim, eu achava que não tinha medo desse tempero até ir ao México... É claro que esperava algo mais picante, mas nunca imaginei o quanto poderia ser incômodo. Os bares oferecem 3 ou 4 molhos já nos pratos de entrada. Eu fui aos poucos. Só uma pontinha, mas era insuportável. Uma queimação sem sentido. Sem gosto, puro fogo. E assim foi durante os 11 dias em que estive por lá. Eu, correndo das pimentas. São lindas, coloridas, cheirosas, de muitos tipos e tamanhos, mas, pra mim, eram só pra olhar. Tem até canteiro no Parque Chapultepec, na Cidade do México.
     Admirei tudo, mas não queria mais provar os molhos e olhava, desconfiada, o cardápio. Apelei para a comida italiana. Num restaurante que prometia ser leve e saudável, pedi um macarrão cabelo de anjo com amendoim e legumes. Mas o prato, que chegou lindo, não tinha nada de angelical. Não consegui comer nem a metade e precisei secar os olhos com um guardanapo como se eu tivesse acabado de ter uma crise de choro. Puro descontrole.
     O exagero tinha acabado com o prazer. Eu não sentia o sabor de mais nada. Só o predomínio de algo que pretendia se impor. Sabe aquela presença de alguém que não deixa mais ninguém conversar e quer ser o centro das atenções a qualquer custo? E aquelas pessoas que nem sabem qual é o assunto e já chegam dando opinião? Excesso de comida, de bebida, de palavras, de imagens, de barulho, de violência. Alegria forçada quando o silêncio poderia falar mais. Pois é, pra mim, as pimentas loucas do México são assim.
     Uma overdose que cansa, que dá vontade de voltar pro nosso arroz com feijão, temperado com bastante alho, para as nossas malaguetas vermelhinhas que ardem na medida certa. Excesso, até de doce, enjoa. Excesso de luz ofusca. Excesso de água alaga. Excesso atropela e, no limite, anestesia.

domingo, 18 de junho de 2017

Apesar do perigo

     Eu havia subido mais de 400 degraus pra ver uma cachoeira. E o guia tinha avisado logo no começo: o tempo seria curto lá em cima. Uma visão rápida da paisagem, algumas fotos pra registrar a beleza e os mesmos 400 degraus de descida. Resolvi encarar o desafio porque sabia que a imagem recompensaria o esforço. Fui aos poucos, sentindo as pernas pesadas, a respiração ofegante, mas consegui.
     A cachoeira Véu da Noiva, em Cascadas de Chiflón, não decepcionou. Era realmente linda, de tirar o pouco fôlego que me restava. Um barulho forte e muita, muita água. Exuberante e assustadora. Só se podia mesmo admirá-la porque a violência da queda, de uma altura de 180 metros, não permitia a entrada nem mesmo dos mais corajosos.
     Tirei o máximo de fotos que pude e já era hora da descida. O risco maior estava no céu. Nuvens inchadas e cinzas... E logo vieram os trovões. O guia alertou que era preciso acelerar o grupo antes que a chuva caísse. E lá fomos nós, turistas obedientes e apressados, descendo os degraus. Imagine o meu medo de raios que estariam por vir ou de um tombo nas pedras que, em breve, estariam molhadas e escorregadias. Nem pensei no cansaço. Fui mais rápida que a tempestade.
     Já fora de perigo, eu me perguntei o que leva a gente a correr riscos - numa viagem ou na própria vida. O México é um país de terremotos - houve um pequeno abalo no pouco tempo em que estive por lá. O trânsito na capital é caótico. Há vulcões. E, no meu passeio ao interior do país, a tal cachoeira também me pareceu uma bela ameaça. Mas lá estava eu com a minha curiosidade valente.
     Há dois anos, numa caminhada pela floresta do Tapajós, em Alter do Chão, no Pará, tive a mesma sensação. Éramos apenas quatro pessoas, no mundo habitado por bichos e, coincidentemente, um temporal rondava o percurso.
     A conclusão nas duas situações: se a gente realmente tentar prever todos os riscos que poderão estar no caminho, ninguém sai de casa. E ainda assim não está a salvo.
     Quantos aviões passam sobre meu prédio todos os dias, quantos carros cruzam o meu trajeto? O medo paralisa. E, por isso mesmo, melhor não pensar nisso.
     Se eu deixasse de ir à cachoeira, não teria me encantado com tanto poder da natureza. Se eu desistisse do passeio na floresta, não teria visto as cores mais diferentes de borboletas, que já não voam mais pela cidade.
     Se eu não saio de casa,  posso ficar no conforto, mas deixo de descobrir, de experimentar, de aprender. É por isso que viajo. E, quando volto, sempre trago comigo a coragem pra viver, apesar do perigo que é a própria vida.